Matheus Aquino
Algumas pessoas podem reconhecer este titulo de um capitulo do livro “Desejando o Reino” de James K.A. Smith e, de fato, a inspiração surgiu de lá. Smith salienta que uma exegese cultural é basicamente reconhecer que as práticas nas quais estamos imersos em nosso dia-a-dia não são neutras. Devemos nos questionar o que estes rituais diários nos ensinam sobre viver bem, como formam a nossa identidade e para onde direcionam nossas paixões. Nas palavras dele:
“Nós deveríamos estar nos perguntando: qual visão de florescimento humano está implícita nesta ou naquela prática? Qual visão de boa vida está incorporada nos rituais culturais? Que tipo de pessoa me tornarei após ser imerso nesta ou naquela liturgia cultural? Esse é um processo que podemos descrever como exegese cultural”. [1]Esta é uma tarefa apocalíptica, no sentido original da palavra, de revelar o que está oculto — diferentemente da associação à destruição. Trazer à tona aquilo que está escondido, compreender o que está por trás do que fazemos, ouvimos, vemos e vivemos diariamente em nossas vidas em nossa casa, no trabalho, na universidade, nas propagandas, na Netflix, Spotify, etc. Uma critica apocalíptica da cultura pode nos ajudar a entender o que tem nos formado.
Em sua exegese cultural, Smith explora algumas fortes formações seculares como: o consumismo, patriotismo, as universidades, e certo tipo de nacionalismo militarista. Obviamente muitas áreas podem ser exploradas, contudo acredito que existe um grande — talvez, o maior — influenciador da atualidade que é a virada terapêutica tão presente na vida comum. Não quero introduzir nem traçar a gênese deste novo ethos [2] — regido pela sensibilização, individualismo expressivista, liberdade, fuga do sofrimento, etc — porém analisar como ele está por trás de muitas de nossas práticas culturais.
Antes de começar nossa critica apocalíptica da cultura afetiva, devemos entender um importante traço da pedagogia do ser.
Existe uma tendência intelectualista de acharmos que pedagogicamente somos simplesmente seres pensantes; que aceitar um conjunto de crenças, dogmas e pensamentos corretos lhe fará uma pessoa melhor. É evidente como esta noção das “cabeças pensantes” afeta o discipulado cristão, tornando-o algo tão simples: “confesse tal credo, acredite nisso e naquilo, pense desta forma, e então você será um cristão”. Até mesmo a tão defendida cosmovisão é repleta de intelectualismo, ser cristão se resume a acreditar numa antropologia bíblica e coisas semelhantes. Essa perspectiva ignora uma influência muita maior em nossa formação: os hábitos.
Inegavelmente os hábitos estão presentes em nossa educação desde a infância. Quando crianças aprendemos a falar ao nos habituarmos com a língua materna. Também é com repetição que aprendemos a escrever sílabas e palavras. Depois de muita insistência de nossos pais, escovar os dentes, tomar banho, arrumar a cama se tornam algo automático. A repetição é uma poderosa força. Se você anda de trem ou ônibus todos os dias, provavelmente de tanto repetir aquele mesmo trajeto, você saiba todo o caminho, ou a próxima estação. Você sequer se esforçou para aprender isso, mas inconscientemente isso foi colocado em você por pura repetição.
Nosso corpo é, no sentido estrito da palavra, um grande nerd. O corpo é um ótimo estudante. Ele, às vezes, simplesmente diz para nossa mente: “deixa comigo, eu faço essa matéria”. Se você tem o costume de utilizar computador, com certeza, você deve escrever sem sequer olhar para o teclado. Porém, se eu te pedir que diga qual é a letra que está no lado direito da tecla ‘L’, creio que você não saberá responder. Isso é estranho, não? Você sabe inconscientemente onde está a tecla ‘Ç’ quando escreve sem olhar para seu teclado, mas quando pergunto sua mente não sabe a resposta. Os seus dedos aprenderam onde cada tecla está, mas sua mente não. O corpo é realmente um grande estudante. Apesar da possibilidade de haver certa deliberação, os hábitos são inconscientes. Muitas de nossas ações não exigem um raciocínio constante, nosso grande nerd faz a tarefa.
Da mesma forma que nosso coração bate sem precisarmos pensar sobre isso, ou que respiramos até quando estamos dormindo, os hábitos que adquirimos se tornam uma espécie de ‘segunda natureza’. Algo automático como se fosse parte da própria natureza instintiva. Se você sabe dirigir, provavelmente passou pela experiência de deixar o carro morrer inúmeras vezes ao tentar controlar a embreagem e acelerador, ou pensar mil vezes antes de mudar de marcha. Mas, aposto que depois de um tempo, dirigir se tornou tão fácil quanto escovar os dentes. Seus pés agem automaticamente, você sequer precisa pensar em colocar na ‘terceira’.
Desse modo, tendo introduzido este tema [3], pode-se perceber como uma imensa parcela de nossa educação ocorre inconscientemente por todas as repetições que fazemos, e em que estamos imersos. Logo, surge a questão central de nossa exegese cultural: podemos negar — até abominar — intelectualmente o ethos de nosso mundo atual, mas será que estamos livres de sua influência?
Os últimos dois séculos nos apresentaram uma espécie de ultra sensibilização, uma abertura extrema às experiências sensoriais, as quais se solidificaram a partir do período Romântico — apesar de existirem raízes anteriores. No século 21, as sensações são ultra valorizadas, pois são uma forma de nos conectar com algo mais profundo e significativo, algo que gere sentido — mesmo que momentâneo — para a vida moderna, isto é, incerta e vazia. Esta sensibilização é evidente nas baladas que exageram nos efeitos luminosos, auditivos e de contato. Nas drogas alucinógenas que te fazem ter uma “good trip”. Nas grandes palestras e livros de autoajuda que proporcionam uma ótima sensação de novidade e motivação. Até chegar à radicalização patológica da automutilação; dentre outros exemplos que podem ser citados.
Não é segredo que a indústria hollywoodiana usa e abusa dessa necessidade por sentir (exemplo disto é quantas sensações lhe são proporcionadas ao assistir Vingadores no cinema), e eles não são os únicos, portanto estamos sendo formados por diversas fontes para experimentar tudo intensamente — e querer cada vez mais.
A autoajuda é uma das literaturas mais difundidas em todo o mundo moderno, podendo ser encontrada com facilidade em livros, textos, curtas frases do facebook e instagram, etc. Em um sentido bem especifico, a autoajuda revela o culto à sensibilização, pois possui um efeito semelhante às drogas — sim, é uma comparação radical, mas me arrisco em fazê-la. As frases e textos de autoajuda proporcionam uma espécie de êxtase. A busca é pela sensação de motivação e mudança. O individuo percebe que para se sentir bem com a própria imagem, por exemplo, deve seguir uma série de passos que o levará até a plena satisfação consigo mesmo. Tudo parece fácil. “Amanhã serei diferente”. O problema é que esta sensação logo passará, na maioria dos casos, não durará uma semana. Por isso, a solução é consumir mais positivismo, seguir mais páginas que te ensinem a ser feliz, ou subir de cargo. Um novo êxtase. É viciante… até que um dia chegue a overdose.
Uma dessas influências reside nas igrejas de nosso século. Algumas igrejas aderiram ao discurso e culto sensório — isso demonstra a influência inconsciente dos hábitos seculares. As musicas se tornam mais instrumentais com efeitos sonoros que trazem aquela famosa vibração no coração, semelhante às baladas. As pregações ganham um jeito coaching, o importante é trazer sensações confortáveis para o coração dos fiéis. A experiência de Deus e a avaliação do culto também são reduzidos ao sentir, na breve sensação de arrepio, e nas experiências individuais. A questão é que todos os domingos isto se repete — dependendo da igreja, até mais vezes por semana — , portanto isto não estará nos influenciando, mesmo que não percebamos?
Aos poucos, nesta pedagogia da sensibilização, Deus assume para os cristãos o papel de Charlotte para Werther [5], um salto emocionalmente espiritual em meio à vida ilógica e vazia. O caminho para o subjetivismo está aberto, e as portas para o Sola Scriptura fechadas. De domingo a domingo, o objetivo daquela pessoa será apenas uma relação utilitária com um Deus romântico. Quando a situação mudar, e este Deus não proporcionar o salto emocional de que precisa, os verdadeiros motivos serão revelados. O desespero falsamente suprimido virá à tona. O não sentir gera ausência, e leva ao vazio que nunca saiu dali. Resumidamente, estamos sendo ensinados a viver, e agir desta exata maneira descrita acima. Temos consciência disso?
Outra problemática que desejo explorar é o que alguns autores chamam de “individualismo expressivista”. Individualismo é um termo bem conhecido hoje em dia, já o “expressivista” nem tanto. O nome é autoexplicativo, é tornar algo conhecido, expô-lo e articula-lo externamente através do ato de expressar-se [6]. O expressivismo é o pai do tão comum ideal de originalidade/autenticidade. Ao ouvir a voz do interior e expressa-la para o mundo, a singularidade humana se sobressai, e a autorrealização se torna crucial para o bem viver — principalmente na influência individualista.
Além disso, não é difícil de imaginar que a externalização em busca da autorrealização também abrange os desejos do coração, que antes eram constantemente reprimidos pela moralidade de origem judaico-cristã [7]. O movimento é de narciso, o sujeito volta-se para dentro em busca de satisfação de sua originalidade, a qual só pode ser articulada no “mundo lá fora”. As prioridades mudam: ser você mesmo se torna mais importante que a família, casamento, trabalho, amigos, religião, etc. O imperativo de autenticidade é desacorrentado. Nada e nem ninguém deve te impedir de ser, desejar, e expressar quem você é.
Este tema pode estar em muitos livros, artigos e mentes, porém a influência sob nós não vem deles, mas sim, inconscientemente das práticas culturais que estamos inseridos.
Nem mesmo as crianças escapam do I.E., e na verdade, elas são os melhores alvos. Um dos mais conhecidos filmes infantis de nosso tempo, Frozen, esboça mensagens interessantes. Elsa, personagem principal mais conhecida como Frozen, possui poderes mágicos perigosos (aqui está a singularidade dela, pois é a única do reino), e por medo de machucar outros e por imposição social (quando por acidente revela sua magia, é chamada de bruxa) reprime-os e se afasta de tudo e de todos. Consegue enxergar algo familiar? O conflito entre o homem autêntico com seus desejos “perigosos” e a moralidade que proíbe-o — podemos até dizer, de machucar o outrem. Ademais, no desenrolar do filme Elsa garante o direito de ser ela mesma, e de utilizar os poderes quando bem entender. Sem repressão nem conflito. É na auto expressão que está a solução. Melhor descrito pela famosa trilha sonora do filme, “Let it go”:
[…] Eu não me importo
Com o que eles vão dizer
Deixe a tempestade rugir
O frio nunca me incomodou mesmo
[…] Sem certo nem errado
Sem regras para mim
Estou livre!
Não é apenas em filmes que reside nossa formação, mas também nas propagandas. Os anúncios estão por todas as partes: na televisão, nas redes sociais, outdoors, etc. Imagine que você está olhando/ouvindo de maneira desapercebida para diversas propagandas durante o seu dia, e a psicologia moderna já explica a tamanha influência disto em sua vida. O famosa rótulo de cervejas, Amstel, lançou um posicionamento de marca em 2019 com um vídeo que foi transmitido em muitos meios de comunicação, o titulo: à vontade para ser você. Juntamente com um breve enredo com pessoas de características singulares (autênticas) — que antes escondiam suas particularidades, mas após abrirem a lata de Amstel, revelam a si mesmas — o comercial também possui uma enfática frase:
“Ai você descobre que Amstel não é só uma puro malte, ela é nascida em Amsterdam, onde você fica à vontade para ser quem você é”.
Finalizando este tema, quero demonstrar por último, como esta busca desenfreada por autenticidade e sinceridade já está inserida no meio cristão — justamente, porque não estamos livres da persuasão inconsciente da cultura secular — e mais do que isso, ajudam a fixa-la. Um culto expressivista. Digamos que nesta mentalidade cristã expressivista, os cristãos estão em contato com a “voz de Deus interior” e para melhor articulação e esclarecimento é preciso, de alguma maneira, expressar-se diante de Deus. Esta é uma das razões de poucos igrejas possuírem um momento de solitude e silêncio no culto — mais comum em igrejas tradicionais. É mais do que comum também uma tendência de traduzir a palavra ‘adoração’ para ‘cantar’. Afinal, a forma de adorar a Deus se tornou expressivista, e um dos únicos momentos do culto que é possível ser sincero, autêntico, “colocar para fora” é na liturgia das musicas. O cantor sequer preocupa-se se a letra cantada ensina algo à igreja, pelo contrário, a questão é se a musica possui algum valor emocional/espiritual interno para si. Percebe-se também esta tendência no “mover do Espirito” em pregadores, os quais nunca (para não me interpretar errado, perceba esta palavra) se apoiam em textos de estudo bíblico, teologia, se preparam, e afins, invés disso esperam que o Espirito revele o que deverá ser falado naquele exato momento. Esta é uma forma cristã secular do confronto romântico entre originalidade e mimética.
Concluindo a parte I desta exegese cultural das liturgias afetivas, na qual tecemos nossa analise apocalíptica a partir da (1) sensibilização e (2) individualismo expressivista, gostaria de fazer quatro apontamentos finais.
Primeiro, o objetivo do texto foi esclarecer como nós somos educados pelas liturgias seculares através dos hábitos diários, e das práticas culturais que estamos imersos. Nesse sentido, mesmo nós que assumimos uma posição intelectual contrária à esta nova era, ainda somos de alguma maneira influenciados por ela. Sinteticamente, podemos concluir que devemos tomar consciência dos rituais e hábitos de nossa vida, pois existem motivadores e ideais por trás de cada um deles. Nenhuma liturgia é neutra.
Segundo, citei alguns exemplos práticos e conhecidos da cultura pop, entretanto estamos sendo bombardeados por estas liturgias o tempo todo, logo se fosse comentar todos estes modelos, este seria um texto sem fim [8].
Terceiro, em certo sentido, tanto a sensibilidade quanto o caráter expressivista não são coisas ruins em si mesmas, na realidade são bens. Entretanto, não devem estar ‘soltos’, e sim dentro de um ‘pacote’ com uma hierarquia correta dos bens — não me debrucei neste assunto, porém acredito que seja importante mencionar.
Por último, conforme já salientei haverá uma segunda parte de nossa exegese cultural, na qual perscrutaremos outras problemáticas da Era Afetiva presentes em nossa cultura, dentre elas a liberdade auto responsável, fuga do sofrimento e a centralização dos sentimentos. Também pontuo que estou sendo seletivo nos temas selecionados, milhares de outras questões poderiam ser abordadas, entretanto isto é uma tarefa futura.
[1] SMITH, Smith. Desiring the Kingdom: worship, worldview, and cultural formation. Baker Academic, 2009. P. 89
[2] Esta mudança na contemporaneidade tem sido muito bem explorada pelo influente diretor do L’Abri Brasil, Guilherme de Carvalho. É possível encontrar textos e palestras sobre esta virada para o que ele denomina de ‘Revolução Afetiva’.
[3] O objetivo era uma introdução rápida, portanto caso queira se aprofundar um pouco mais no assunto, indico três bons livros sobre a temática: ‘Desejando o Reino’ e ‘Você é aquilo que ama’ do James Smith, e ‘O poder do hábito’ do Charles Duhigg. Além disso, é possível encontrar ótimos textos no perfil do Lecionário aqui no Medium.
[4] Ao citar este século, refiro-me diretamente a Descartes, filósofo que virou a chave em direção à interioridade radical a partir do desprendimento da Razão. Outros pensadores foram desenvolvendo e maturando este ideal, como Montaigne, que em seu mergulho dos particulares, nos apresenta o tão cunhado autoconhecimento. De qualquer maneira, caso deseje se aprofundar nesta questão, indico o livro “As fontes do Self” do Charles Taylor.
[5] Personagens do romance “Os sofrimentos do jovem Werther” escrito por Goethe.
[6] O expressivismo também finca suas raízes — começando pelo Sturm und Drang — no movimento romântico, o qual retoma à uma conexão com a natureza em termos de contato da “voz interior” com o élan que percorre todo o mundo — negando a relação iluminista instrumental. Entretanto, este contato não é suficientemente esclarecido nem bem articulado enquanto permanece no interior, logo deve ser exposto em direção ao exterior, para fora.
[7] O período romântico não é responsável sozinho; a grande chave de radicalização total do individualismo expressivista ocorre, principalmente, na década de 60. Porém, este tema abordarei em meu próximo texto ao tratar do problema da Liberdade — ambos temas se encontram.
[8] Um tema que gostaria de explorar, porém não tenho nenhum repertório para isto, é a forma como as redes sociais corroboraram para a necessidade de auto expressão dos indivíduos modernos. A tentação é grande, afinal todos querem saber sobre “o que você está pensando?”.
Matheus Aquino é cristão e estudante de psicologia. Leitor de teologia, ciências cognitivas e temas relacionados à hipermodernidade. Membro da Igreja Nova Cidade. Seus hobbies são assistir filmes e séries com espírito analítico. Acredita no poder do Evangelho e em sua centralidade para a vida.
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