De fato é muito mais fácil discutir teologia do que fazer a obra de Deus. Esse foi o maior feito dos fariseus que eram sempre os interessados nas discussões, atados às tradições dos anciãos, e faziam disso um fim em si mesmo, ao invés de fazerem a obra de Deus ou, no mínimo, deixar que a obra fosse feita. Esse mesmo feito era visto nos discípulos de Jesus. Quando viram um homem cego de nascença, aproveitaram a situação para adentrar um território fértil de discussão dos motivos dessa enfermidade. Tinham interesse em discutir opiniões. Jesus, no entanto, não fermentou esse viés hermenêutico nem nos  fariseus nem mesmo nos Seus discípulos. Pelo contrário, demonstrou que a obra de Deus é para ser feita e não dialogada. O sofrimento alheio não é para ser presumido e, sim, diminuído.

Deus concede poder a igreja para fazer e não discutir a obra Dele. Ele oferece poder para a igreja sair do raciocínio teológico para o campo da ação missionária. De fato há espaço para a defesa argumentativa cristã. Defender a fé é fundamental quando a plenitude das Escrituras é subjugada. Mas viver o tempo todo discutindo e rediscutindo os mesmos assuntos, deixando de lado o anúncio do Evangelho, é uma perda de foco. Precisamos estar mais atentos para não sermos levados para esse lado da especulação.

No momento em que Davi estava na excelência de enfrentar o gigante Golias, seu irmão Eliabe quis tirá-lo do foco, fazendo-lhe enormes críticas. Davi, ao notar sua intenção, deixou-o de lado e focou no seu alvo, ou seja, vencer os gigantes. Mais tardar, Neemias, forçado pelo senso de dever e amor ao seu povo, colocou-se nas mãos de Deus para restituir a cidade de Jerusalém, há cento e quarenta e dois anos debaixo de escombros. Seus contendores tentaram de diversas maneiras e em diversas circunstâncias parar a obra, mas Neemias, com os olhos no alvo, respondeu: “Estou fazendo uma grande obra e não posso descer”. Neemias, não estava ordenado a parar a obra para discutir a obra.

Quando os discípulos de Jesus, no sopé do monte da Transfiguração, estavam sendo procurados por um pai aflito, pedindo-lhes para que curasse seu filho lunático, eles não puderam. Estavam carentes de poder. Ao invés de orarem e jejuarem, de exercerem a fé e libertar o jovem endemoninhado pelo poder de Deus, estavam dialogando com os escribas. Carentes de poder, perderam o foco. Ao invés de fazerem a obra, estavam falando sobre a obra. 

Se um irmão ou irmã estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia e um de vocês lhe disser: “Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se”, sem porém lhe dar nada, de que adianta isso? Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta. Tiago 2:15-17

O pregador Charles Haddon Spurgeon, disse que o Evangelho não é para ser discutido, mas, para ser proclamado. O Evangelho é como um leão. Um leão não necessita de defesa, basta soltá-lo. Hoje em dia, nos preocupamos mais em discutir o Evangelho do que em pregar o Evangelho. Gastamos mais tempo com discussões, algumas até animadas, outras até mesmo fúteis, do que em proclamar o Evangelho, que é o verdadeiro poder de Deus para a salvar todos aqueles que crerem. Levantamos as bandeiras das nossas opiniões com zelo incomum, e ao mesmo calamos nossa a voz, covardemente, deixando de proclamar aos que necessitam do Evangelho. Que Deus nos dê entendimento e nos leve ao Cristianismo genuíno e simples, a fim de que a ação missionária da Igreja não seja enterrada debaixo de nossas tradições religiosas nem retida pelas nossas apurações teológicas.