por Pedro dos Anjos
I know his blood can
Know his blood can make me whole
I just touched hem of his garment
Blood of Jesus, blood of Jesus
I just touched hem of his garment

– Blind Willie Johnson
“ Bem, eu prego a Igreja sem Cristo. Eu sou um membro e pregador dessa igreja onde os cegos não vêem, os aleijados não andam e o que está morto continua desse jeito”, brada Hazel Motes, diante de uma platéia recém-saída da última sessão em um cinema da cidade de Taulkingham. Hazel, recém-chegado a cidade, dispensado há pouco tempo de suas responsabilidades do exército americano, é um homem sem família e sem amigos, mas que carrega uma mensagem. Com um terno surrado azul escuro de 3 dólares, olhar duro e desdenhoso e, como coroação de sua figura esquisita, o chapéu preto ameaçador, como de um pregador itinerante, formado pela cultura do Bible Belt americano. Hazel herda de seu avô o chamado para a proclamação. Um típico pregador ‘fundamentalista’ do sul dos Estados Unidos, no entanto, trazendo consigo um tipo diferente de ‘fundamentalismo’: o do tipo resoluto e obstinado a não acreditar em nada que seus olhos não possam ver e mãos possam tocar. Seu fundamento: não há sangue remidor, mas também não há nada de que ser remido.
Sangue Sábio (1952) é o primeiro, dos dois romances da escritora sulista Flannery O’ Connor (1925–1964), bem mais famosa pelos contos que escreveu. Flannery era uma católica devota, no Sul dos EUA, região marcada por tradições cristãs dentro do círculo do protestatismo.
O romance tem sido, ao longo dos anos, visto por muitos como uma obra niilista, ou como um retrato psicológico do que seria um fanatismo religioso nutrido na região. Muitos se espantam com o fato de Flannery ter sido uma religiosa fervorosa e ainda assim ter criado figuras de caráter tão duvidoso, indivíduos realmente desprezíveis, que agem de maneira depravada e vil, cujas escolhas e comportamentos desencadeiam uma série de acontecimentos aparentemente sem sentido nenhum, que apenas parecem contaminar a vida de quem cruza o seu caminho ou envenenar os solos em que pisam. Afinal, “o que alguém da igreja, um crente, uma carola, ou um ‘puritano’, alguém que segue de maneira ignóbil uma cartilha de valores morais tão rígidos, poderia ter a ver com histórias tão visceralmente humanas?” Alguns, partindo de seus próprios preconceitos, poderiam perguntar.
Em terras encharcadas de religiosidade e fé, por mais duvidosas e distorcidas que estas possam ser, um lugar marcado pelo conceito de redenção, denominado “Cinturão da Bíblia” e ainda assim, com habitantes de vidas tão distantes do sangue redentivo, um tipo ainda mais estranho de evangelho começa a ser proclamado por uma figura pálida, caricata, irritadiça e contorcida pela necessidade de negar Àquele em quem diz não acreditar e ainda assim se ver assombrado pela impossibilidade de se ausentar de sua presença. Haze, como depois de algum tempo, o protagonista passa a ser chamado, numa alusão ao seu comportamento nebuloso, imprevisível, indefinido (haze em inglês significa neblina) é um tipo que você provavelmente buscaria evitar a qualquer custo, um sujeito perturbado, totalmente desprovido de simpatia e sutileza, terrivelmente obstinado e proselitista, aficionado por um único tema que se manifesta em arroubos violentos de “evangelismo” ateísta.
Em um momento do primeiro capítulo da história, após ser levado por algum tipo de aparente aleatoriedade a sentar-se à mesa na companhia de três mulheres desconhecidas no vagão-restaurante do trem que é o primeiro cenário da história, Haze, sem nenhum tipo de introdução anterior, questiona em tom inquisitivo as jovens: “Vocês acham que eu acredito em Jesus? […] Bem eu não acreditaria nem mesmo que ele existisse. Ainda que ele estivesse nesse trem.” Aqui sua voz é descrita pela narração, como a de alguém falando quase como se estivesse sem ar, como se a qualquer momento, Haze quisesse fazer de suas últimas palavras uma declaração de incredulidade.
O estranho pregador chega a Taulkingham, convocando as massas para a única verdade que na sua concepção libertaria o homem, um Evangelho Niilista.
Haze é um homem perturbado, buscando esperança a cada espasmo blasfemo, pregando um tipo de crença que se ergue sobre as ruínas de uma religião sulista, de falso avivamento em falso avivamento, morta há muito tempo e que nada pode fazer pra reviver almas cauterizadas em tradições e rituais que não são capazes de salvar. Em Sangue Sábio, a metáfora da visão se faz presente por toda a extensão do livro, supostos cegos conseguem enxergar a realidade bem melhor do que aqueles que só conseguirão de fato ver quando perderem toda a visão sobre a qual constroem sua perspectiva de realidade enganosas. Ao longo do livro, em paralelo à peregrinação do protagonista, conhecemos outros personagens como o evangelista cego Asa Hawks e sua filha Sabbath Lily Hawks, cujas vidas terão grande impacto na sequência de eventos que envolverão Motes, e a estranha figura de Enoch Emery, um pobre coitado de 18 anos, deslocado da sociedade e com sérios problemas pessoais. Ele acredita piamente que há algo no seu sangue, herdado do pai, que o está direcionando ao momento em que tudo fará sentido, Emery aguarda uma experiência existencial que fará todas as coisas novas, um desacortinar da realidade que revelará a ele o seu papel e a sua redenção. Nós bem que poderíamos ser personagens dessa história, afinal todos estamos buscando por algo nesses termos.
Hazel Motes é o retrato de todos nós, quando envoltos em culpa e inadequação diante de Deus, dizemos em nosso coração, como tolos: “não há Deus”, preferindo negar a sua existência, mesmo a reconhecendo, a nos conformarmos ao seu padrão. A culpa e a inadequação permanecem lá, ainda que levantemos falsos evangelhos e construamos igrejas sem Cristo para provarmos de uma falsa redenção e de um pertencimento mentiroso e fugaz. A sujeira não é retirada de nós, ao mesmo tempo em que bradamos repetidamente, como Motes: “Eu estou limpo”! Até que a falsa ilusão de pureza e moralidade seja quebrada pelo reconhecimento insuportável de estar completamente impuro.
A Igreja sem Cristo assume muitas formas em nossa cultura (A igreja da relevância cultural, a igreja da justiça social, a igreja do cancelamento nas redes sociais, a igreja do legalismo fingindo-se ortodoxia e a igreja do antinomianismo fingindo-se bíblica), todas levantando seus próprios sacramentos, coroando seus deuses, confortando, mesmo que temporariamente, consciências que desejam sentir-se em paz por pertencerem a tal igreja. Se você duvida que o mundo é bem parecido com uma história de O’Connor, abra bem os seus olhos. É bem provável que nós sejamos, na maioria do tempo, os personagens caricatos de uma de suas histórias.
Comecei esse texto com trechos de uma antiga música, escrita por alguém que não conseguia enxergar. A história de Blind Willie Johnson é marcante: um homem negro, nascido no Texas, sul dos EUA, criado para se tornar um pregador, ganhou seu primeiro violão aos 5 anos, para ajudar na carreira como futuro ministro. Foi cegado, dizem, aos 7 anos pela própria madrasta, num ato de vingança após uma discussão com o pai de Johnson por causa de infidelidade. Blinde Willie, ou como se tornaria conhecido, the Blind Peregrin (o peregrino cego), se tornaria também um pregador de rua, apresentando a mensagem do Sangue Remidor, através de sua música que combinava uma potente voz rasgada e uma técnica de slide guitar inovadora. De 1927 a 1930, Blind Willie gravou suas composições que mais tarde se tornariam populares e seminais para o Rock’n’Roll. Com o evento da grande depressão, Johnson passou por maus bocados. O fim de sua vida foi triste, sua casa pegou fogo, e após continuar vivendo em suas ruínas, Johnson contraiu uma severa pneumonia e morreu praticamente ao relento, experimentando em sua própria morte, a angústia retratada em sua obra-prima: a canção Dark was the night, Cold was the ground, um dos lamentos mais angustiantes do blues. Seu corpo no chão frio, em uma solitária noite escura. Difícil acreditar que sua vida não foi um conto trágico de O’ Connor.
Voltando a Motes, o jovem pregador era um homem com uma trave (em inglês ‘mote’) em seu olho, e via a si mesmo como o veículo da mensagem que tiraria o cisco da fé dos olhos dos incautos (Mt 7.3). Pode ser que sua experiência de ler a Bíblia na infância, com as lentes erradas, as dos óculos da mãe (que sacada!), o tenham afastado das verdade que desde cedo, já tateava. Motes se torna alguém com um olhar de procura, mas que não encontra jamais porque nunca sabe pelo que está procurando. Mas como o livro bem ensina, principalmente em suas partes finais, há cegueiras e cegueiras e mesmo conseguindo ver, é possível ter a verdade bem diante de nossos olhos e permanecer totalmente alheio a ela, ainda que ela nos assombre e se agarre a nós como uma maldição.
Flannery nos aponta a verdade de que a redenção, é portanto, enxergar. Não simplesmente ver através de olhos físicos, que podem se tornar muitas vezes instrumentos de engano, míopes e vorazes que são. É enxergar para além do que se vê e não se entende. É perceber a noite escura e o solo frio em que nossas almas se encontram e clamar pela Estrela da manhã. “A noite é passada, e o dia é chegado […] Andemos honestamente como de dia” (Rm 13:12–14).
Apesar de sua trágica vida, a falta de visão de Blind Willie Johnson jamais o impediu de enxergar além dos panos negros que cobrem essa realidade: ele cantava ainda: “Let your light shine on me”.
Redenção é encontrar visão sob a luz que a tudo ilumina e olhar as coisas de verdade, não mais as tateando no escuro, mas as tomando pelo que elas de fato são, reveladas pelo glorioso Iluminador de todas as coisas. Você verá que Sangue Sábio é uma história sobre queda, pecado e não se encontrar encaixado na vida, sobre a culpa que carregamos e a mancha da qual jamais conseguimos nos livrar sozinhos. É a respeito das falsas igrejas que continuam pregando evangelhos sem Cristo e sobre como o nosso sangue, nada sábio, clama por purificação e o busca em experiências inúteis. Embarque no trem pra Taulkingham, talvez lá você perceba que o dono de um sangue verdadeiramente sábio sempre esteve ali, no mesmo vagão que você, lhe dizendo que você precisa deixar de ver, por um breve momento, para que de fato comece a enxergar.
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