por Hudson Araújo
Poucos filmes me deixaram tão reflexivo em 2020 como Mank.
Lançado pela Netflix em dezembro, o filme conta com atuação de Gary Oldman, Amanda Seyfried e direção do celebrado David Fincher.
Mank acompanha Herman J. Mankiewicz enquanto faz o roteiro de Cidadão Kane, considerado por muitos “o melhor filme de todos os tempos”. Nele, o roteirista lida com todas suas memórias de uma Hollywood tóxica e psicologicamente sufocante, enquanto lida com a pressão de seus colegas sobre seu próximo projeto e seus próprios dilemas pessoais.
O filme vem em um contexto em que a própria ideia de “cinema” vem sendo questionada. Já que, em meio à pandemia, diversas produções que originalmente eram para a tela grande foram forçadas a ser lançadas em streaming. Na mesma semana de lançamento, a Warner Bros anunciou que todas as estreias de 2021 serão lançadas nos cinemas e por streaming, ao mesmo tempo. Um movimento único no mercado que irá mudar tudo daqui pra frente.
Dentro desse contexto, fechar o ano com um filme sobre uma produção que mudou para sempre o cinema parece apropriado.
Não falta currículo para Cidadão Kane ser considerado o filme mais importante da história.
Foi escolhido em primeiro lugar durante décadas pela apuração da BFI na lista de “melhores filmes da história” mais celebrada da indústria, com os votos de centenas de diretores e críticos ao redor do mundo. Roger Ebert, grande crítico de cinema, disse: “É decidido: Citizen Kane é, oficialmente, o melhor filme de todos.” Entre tantas outras listas, críticos e sites apontam Cidadão Kane como “o grande filme’’.
Mesmo que o resultado final não lhe agrade, ainda sim, seu histórico de produção, por si só, já dá motivos o suficiente para ser um dos maiores marcos do cinema.
Lançado em 1941, foi dirigido pelo Jovem Orson Welles, de apenas 25 anos. Na época, sem nenhuma experiência com cinema. Por seu sucesso no rádio, teatro e seu evidente talento em contar histórias, a produtora deu um contrato inédito na época e raro até hoje: total liberdade criativa, corte final e liberdade de escolha da equipe.
Outra questão importante é o avanço na linguagem audiovisual que o filme fez. Apesar de ser extremamente aclamado, Wells não sabia praticamente nada sobre a mídia, tudo que ele sabia sobre cinema aprendeu com John Ford. O diretor, produtor e ator assistiu dezenas de vezes “No Tempo das Diligências”, um famoso faroeste de John Ford, para se inspirar em seu primeiro projeto.
Quem ajudou Welles nas partes visuais mais impressionantes do filme foi o diretor de fotografia, Gregg Toland. Considerado por muitos um tipo de co-autor do projeto.
Os realizadores pegaram diversas técnicas que hoje são senso comum, como a profundidade de campo, narrativa não linear, planos longos, entre tantos outras, e aplicou tudo isso em um único filme, como um grande exercício de onde o cinema cinema estava e poderia ir, uma grande amostra da potência do cinema como mídia narrativa.
Falando em narrativa, outra questão muito importante de se lembrar é que, mesmo sendo considerado “um grande filme”, no fundo, ele é uma grande provocação, um deboche.
O filme conta a história de um grande magnata da mídia que, em seus últimos momentos de vida, disse a palavra “Rosebud”. Depois disso, jornalistas investigam a vida de Kane atrás do significado dessa palavra.
A história é baseada na vida de William Randolph Hearst, um magnata do jornalismo poderoso em Hollywood, sua empresa era dona de jornais, revistas, rádios e produtoras de filmes. O que, por aqui, podemos comparar com um Roberto Marinho Hollywoodiano.
O filme era uma grande crítica social contra o magnata, principalmente por sua manipulação política através da mídia. Contendo até algumas críticas e provocações sobre sua vida pessoal e familiar, falando de sua infância e casamentos.
A produção teve que ser feita às escondidas da produtora, processos judiciais e outras conturbações apareceram durante a produção, porém, nada disso interferiu na acidez e sarcasmo do filme.
E nisso, devemos muito ao roteiro de Mank.
Sobre Mank
Segundo uma crítica do Indiewire, há uma tese que afirma que o real autor de Cidadão Kane não é Orson Welles, mas Mank. O filme não segue com rigor essa linha, mas flerta consideravelmente com a ideia (mesmo que a tese tenha sido derrubada nos últimos anos).
O filme carrega toda a estética dos filmes dos anos 40 com total precisão e preciosismo, talvez de forma nunca feita até aqui, simulando o áudio mono, colocando marcas de cigarro no filme “em projeção” e outros detalhes precisos. Porém, a representação tanto do roteirista quanto da Hollywood ao seu redor, são regadas de uma visão amarga e rancorosa do meio, mesmo que, por vezes, afetuosa.
Mank, interpretado com brilhantismo por Gary Oldman, carrega um nível de alta consciência que só poderia lhe provocar a dor. É possível perceber que ele é muito mais inteligente do que se espera dele ou de qualquer outro roteirista da época, sempre fazendo citações literárias ou filosófica, ou dando uma resposta ou comentário que só poderia ser feito por alguém que enxerga os defeitos do seu meio e em si próprio.
Mesmo com suas próprias falhas morais, como a embriaguez, arrogância e constantes flertes com jovens mulheres, algumas vezes até diante de sua esposa, é possível ver seu incômodo com a Hollywood dos anos 30.
Diferente da maioria dos filmes que revisitam esse período, em Mank, Hollywood é um grande labirinto e uma tortura psicológica para nosso protagonista. Além da depravação moral do lugar, há a denúncia da superficialidade e do tédio criativo daquele ambiente. Trazendo a assustadora ideia de que: a base e origem de um dos ambientes mais influentes do mundo todo não era conduzido por mentes brilhantes, mas por produtores medíocres, superficiais e egotistas que sufocam qualquer vestígio de criatividade, agindo apenas em interesse próprio.
Como se não bastasse, o roteirista tinha que lidar com um meio que não tem noção da própria responsabilidade. O Cinema era considerado uma forma inferior de arte e, por isso, toda a indústria a tratava como tal, um produto de saída rápida e um bom negócio sem grandes consequências morais.
Vários produtores e roteiristas não tinham noção da força imaginativa do cinema, sendo totalmente irresponsáveis com o uso dela. E aqueles que viram esse potencial, começaram a usar a mídia de forma antiética.
Mank, portanto, faz um roteiro ironizando diversas pessoas de seu convívio e meio, principalmente o magnata William Randolph Hearst, ao qual conheceu de perto. Trazendo assim diversos problemas para si.
O roteiro de Cidadão Kane surge neste contexto: de um homem cansado da mediocridade, superficialidade e depravação do próprio meio, refletindo não apenas a Hollywood de ontem, mas certamente a de hoje também.
Apesar de responder a essa superficialidade com profundidade, também surgiu muito rancor do seu texto, com certos requintes até de crueldade para com as pessoas que conviveu.
Por fim, o que resta no final é a esperança do roteirista de, finalmente, ter feito algo especial com sua vida, mesmo com todas as inimizades adquiridas.
Sobre indústria, trabalho e mediocridade
Há muitas coisas dentre as quais não devemos aprender com Mank. Sua arrogância, amargura, e a habilidade única de ofender pessoas.
Porém, o que podemos aprender diante da história desse homem em uma situação tão difícil?
Eclesiastes 9:10 diz:
“O que as suas mãos tiverem que fazer, que o façam com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria.”
Na sabedoria judaica é muito clara a ideia de honra ao trabalho, na frutificação como um mandato de Deus de todos para toda a comunidade, e isso apenas se intensifica em todo o novo testamento.
“Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens” Colossenses 3:23
A Reflexão e aplicação que podemos ter com Cidadão Kane e Mank é que, se um roteirista bêbado e com poucos escrúpulos se incomodou com a mediocridade e a injustiça, ainda mais nós, que acreditamos que tudo deve ser feito como para Deus, devemos nos inconformar também, certamente não com a mesma acidez, mas com o mesmo senso de inconformismo. E isso tem as mais diversas aplicações.
Podemos aplicar isso, por exemplo, no inconformismo com a qualidade das obras artísticas que consumimos. Com o novo modelo de distribuição por streaming, a tendência é ainda maior das produtoras fazerem produtos de larga escala, totalmente superficiais para descartar rápido, ainda mais contando que o seu lucro não depende mais da pessoa sair de casa e comprar um ingresso (a ironia é que a própria Netflix perpetua parte dessa mediocridade, entregando obras que funcionam apenas por causa de seu público alvo).
Como podemos responder diante dessa mediocridade? Como podemos ser mais conscientes na hora de consumir nossos filmes e séries?
Devemos ser mais seletivos com nosso consumo com a cultura, evitando conteúdos que possuem pouco valor cultural ou priorizando obras com mais qualidade e profundidade, e sempre incentivar produtores independentes que podem trazer mais variedade na produção cultural. Estas são apenas algumas formas de fazer esse movimento de resposta.
Podemos continuar a aplicação em diversas áreas: nosso trabalho, nossa vida em comunidade, nossos estudos, nossa arte, tudo deve ser feito com a melhor qualidade dentro dos recursos possíveis, com ética e responsabilidade.
Nós, cristãos e remidos, que acreditamos que o dever do cristão é uma presença fiel na sociedade, temos que responder a mediocridade com um trabalho excelente.
Que Deus nos dê a humildade de aprender com Mank, que possamos responder a ambientes hostis e vazios, provavelmente não com algo tão grandioso como Cidadão Kane, mas com um coração temente a Deus e um trabalho fiel em tudo aquilo que fomos chamados.
Referências:
https://www2.bfi.org.uk/greatest-films-all-time
https://www.rogerebert.com/roger-ebert/whats-your-favorite-movie
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/10/27/ilustrada/17.html
observer.com/1999/08/directed-by-john-ford-35-movies-and-a-lifetime-in-one-weekend/amp/
www.indiewire.com/2020/11/mank-review-david-fincher-1234597270/amp/
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