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Antonio Carlos Costa
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Acabei de reler dois livros: “Os erros fatais do socialismo”, de Hayek, um dos mentores do pensamento neoliberal e, “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”, escrito por Friedrich Engels, melhor amigo de Karl Marx.
Chamou a minha atenção o fato de eles -num diminuto ponto- pensarem igual sobre as relações trabalhistas no capitalismo.
Ouçamos Engels:
“Quem garante ao operário que, para arranjar emprego, lhe basta boa vontade para trabalhar, que a honestidade, a diligência, a parcimônia e todas as outras numerosas virtudes que a ajuizada burguesia lhe recomenda são para ele realmente o caminho da felicidade? O operário sabe que, se hoje possuiu alguma coisa, não depende dele conservá-la amanhã; sabe que o menor suspiro, o mais simples capricho do patrão, qualquer conjuntura comercial desfavorável podem lança-lo no turbilhão do qual momentaneamente escapou e no qual é difícil, quase impossível, manter-se à tona. Sabe que se hoje tem meios para sobreviver, pode não os ter amanhã”.
Ouçamos Hayek:
“A ordem ampliada (capitalismo) surge de um processo competitivo no qual o sucesso decide, não a aprovação de uma grande mente, de uma comissão ou de um deus, ou a conformidade a algum princípio subentendido de mérito individual. Nessa ordem, o avanço de alguns se dá à custa do fracasso dos esforços igualmente sinceros e mesmo igualmente meritórios de outros”.
Gostaria de ressaltar cinco fatos:
1. É notório o sofrimento de milhões de trabalhadores, que vivem cercados de incertezas -sujeitos a subitamente perderem tudo-, apesar da dedicação de corpo e alma ao trabalho que exercem.
2. O pastor que ignora o drama vivido pela classe trabalhadora (precariado), à qual a maioria da membresia da sua igreja pertence, desconectou-se da realidade. Esse malandro não anda no espírito do servo de Deus Tiago: “Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos e que por vós foi retido com fraude está clamando; e os clamores dos ceifeiros penetraram até aos ouvidos do Senhor dos Exércitos”. Tg 5:4
3. Pastor tocar no tema do funcionamento das relações trabalhistas, condenando a exploração, os ambientes insalubres, os salários baixos, a falta de tempo para aproveitar a vida, as pressões diabólicas exercidas por -chefes transformados em capatazes após terem ingressado na cultura do mundo corporativo-, significará sempre ter de enfrentar graves problemas de relacionamento com a maioria dos membros mais abastados. Há os que resistem heroicamente. Tenho-os em alta estima. Porém, muitos sucumbem à pressão econômica. Dizer que no Brasil não há pastor lutando pelas minorias é uma inverdade. Sei de vários que defendem a minoria rica.
4. Mente quem diz que na economia de mercado sempre sai vitorioso o honesto, competente, resiliente.
5. Por que tolerarmos essa escravidão velada, que remete milhões de seres humanos para a insônia, depressão, senso de inadequação, uso de ansiolíticos, álcool? Por que tem de ser assim? Pelo que devemos lutar? Podemos ter pontos de vista diferentes sobre as soluções do problema, mas negá-lo sinaliza cegueira associada a desumanidade.
«E vocês, senhores, façam o mesmo com os servos, deixando as ameaças, sabendo que o Senhor, tanto deles como de vocês, está nos céus, e que ele não trata as pessoas com parcialidade». Ef 6:9
Fundador da ONG Rio de Paz, teólogo e jornalista.
Fundador da ONG Rio de Paz, teólogo e jornalista.

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