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Antonio Carlos Costa
Just now·4 min read
Não consegui pregar domingo passado na Igreja Presbiteriana da Barra, conforme havia dito que faria, no que teria sido a minha última pregação na condição de pastor titular da igreja. Uma virose me deixou arriado. Há muito tempo não me sinto tão abatido fisicamente. Acredito, contudo, que o corpo já esteja dando sinais de melhoras. Portanto, é bem provável que minha despedida ocorra no culto do dia 26 de dezembro.
Sinto que devo trazer mais uma palavra de esclarecimento sobre a minha decisão. O temor de Deus me leva a fazê-lo. Temi, com o meu exemplo, fazer mal à igreja de Cristo no nosso país. Quais possíveis mal-entendidos gostaria de desfazer?
Minha decisão não deve ser interpretada como uma atitude de menosprezo ao ministério pastoral, função que exerci com fidelidade à Palavra de Deus durante 35 anos. Que período rico e abençoado da minha vida! Vivenciei a intensa alegria de testemunhar a plantação de igrejas, milhões ouvirem a exposição das Escrituras por meio de programas de televisão e uso das redes sociais e um movimento social que saiu das entranhas da igreja atingir bilhões de pessoas em todo o mundo.
Tudo foi tão bom, que o Pedro, meu filho mais velho, está se preparando para ser ordenado pastor pela Igreja Presbiteriana do Brasil. Fico feliz de que o faça, uma vez que estou bem certo de que não há igreja madura sem um púlpito erudito, ungido e santo. Após os anos dedicados a essa função, sinto que devo mais do nunca honrar de modo especial a esses servos de Deus, que tomaram a decisão de pastorearem a igreja que Deus comprou com o seu próprio sangue.
Alguém pode indagar, se o ministério pastoral é tudo isso, por que você o está abandonando?
Peço que o que tenho a dizer seja visto à luz desses 35 anos de dedicação à igreja na condição de pastor titular. Peguei a minha juventude e dediquei a essa causa.
Não estou abandonando a igreja e o ministério da Palavra. Tão somente não quero mais servir ao corpo de Cristo como pastor titular. Continuarei pregando em cultos presenciais duas vezes por semana. Três vezes por semana pregarei exclusivamente pelas redes sociais, que serão também usadas para postagens diárias sobre os mais diferentes temas, todos abordados à luz da Escritura Sagrada.
Assumi o compromisso com a Editora Mundo Cristão de comentar o Novo Testamento inteiro. Em março do ano que vem, sairá o meu primeiro comentário bíblico, sobre a Carta aos Filipenses. Em 2023, será a vez de publicar um comentário sobre Carta aos Colossenses. Nos últimos anos, preguei verso por verso sobre os evangelhos de Marcos e João, Efésios, Gálatas, Filipenses, Romanos 5, Romanos 8. Há um mês, dei início a análise do Catecismo de Heidelberg.
Deus está abrindo portas a fim de que eu me comunique com milhões de pessoas, no Brasil e no mundo, por meio do Rio de Paz, organização não governamental fundada por mim. Ano que vem, sairá um longa-metragem sobre a nossa história, que será exibido em redes de streaming, salas e cinemas dos mais diferentes países. Nossas manifestações continuam contando com a cobertura de todos os meios de comunicação brasileiros e agências internacionais de notícia. Como deixar de fazer o que Deus me chamou para fazer a fim de continuar fazendo o que outros podem fazer em meu lugar?
Um palavra final sobre “militância”. Não estou trocando o mistério da Palavra, minha principal vocação, pela “militância”. A Palavra de Deus me levou a lutar pela justiça e pelo direito. A luta pela justiça e pelo direito tem me dado a oportunidade de levar a Palavra de Deus para milhões de seres humanos. Nunca atingi tanta gente em minha vida.
O que muitos chamam de “militância” eu chamo de luta suprapartidária pela igualdade de oportunidade de vida, erradicação da miséria, defesa de direito, preservação das instituições democráticas. Sinto que minha fé exige que quando uma criança tem sua cabeça explodida por um tiro de fuzil num tiroteio em favela é meu dever ir às ruas protestar. Esse é meu conceito de militância.
Há mais um ponto nessa história toda. Ocorre de tomarmos decisões na vida que nasceram da relação íntima com Deus. Como esperar ser compreendidos por quem não esteve conosco perante o conselho do Senhor?
Não posso encerrar esse artigo sem mencionar os milhares que manifestaram apoio e apreço pela minha vida. Há poucos dias, disse para a minha esposa, eu devo satisfação a esses irmãos. São milhares de homens e mulheres que não conheço pessoalmente, mas que sempre saem em minha defesa nas horas em que sou caluniado. Graças a essa gente preciosa, casas foram construídas para os desabrigados em Moçambique, pobres recebem ajuda humanitária no nosso país, manifestações públicas são realizadas e as palavras mais doces de encorajamento me são comunicadas.
Espero jamais decepcioná-lo. Continuo visceralmente apegado ao ministério da Palavra, embora não me sinta mais apegado a um importante cargo que ocupava na igreja de Cristo.
Fundador da ONG Rio de Paz, teólogo e jornalista.
Fundador da ONG Rio de Paz, teólogo e jornalista.

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