por Hudson Araujo
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Como dito no texto anterior, a canção do Pabllo Vittar e a resposta de vários cristãos é um paradigma para entendermos a extensão da cultura gospel e a falta de leitura cultural de muitos cristãos. Diante disso, qual seria uma proposta de interação com a cultura que respeita a ortodoxia cristã? Antes de dar uma resposta sobre o caso em si, é necessário falarmos sobre os principais temas que a canção evoca.
Sobre a cultura LGBTQI+
A primeira esfera que precisamos falar da canção é toda a sua carga política LGBTQI+. Não é segredo que o Pabllo Vittar está virando um ícone e uma referência nacionalmente, tendo até uma visibilidade internacional. Neste sentido, como os cristãos têm reagido? Resumindo a grosso modo, temos dois grupos majoritários entre os cristãos: os que têm uma relação liberal e uma interação sem restrições quanto essa cultura, usando termos e reproduzindo comportamentos que muitas vezes não encontram ressonância com a fé cristã, como os irmãos que escolhem, ao sinal de qualquer vestígio de cultura Gay, negar, restringir ou ignorar o artefato cultural por conta dessas características.
Dito isso, qual dessas é a resposta ideal? Certamente, nenhuma. Apesar da prática homosexual não ser encorajada por aqueles que já nasceram de novo, isso não quer dizer que devemos estar completamente longe dessa cultura e dessas pessoas. Jesus estava sempre perto dos marginalizados socialmente, mas nem por isso ele deixou de se posicionar e apontar o pecado dessas pessoas, como fez com a mulher samaritana, por exemplo (João 4:5–43).
Nossa missão como cristãos é ouvir e prestar atenção nas manifestações culturais ao nosso redor para que possamos mostrar, em respeito, o que as escrituras dizem sobre todos os aspectos da vida, inclusive a sexualidade.
Qual foi a última vez que você ouviu alguém do movimento Gay sobre suas angústias e aflições? Se você tem alguém na sua igreja que tem atração por pessoas do mesmo sexo e está lutando para não exercer a prática, você simpatiza, ora e se importa com a luta de seu irmão?
São perguntas que parecem não ser feitas quando olhamos para uma canção como essa e, imediatamente, já rejeitamos sem ao menos ouvir o que ela tem a dizer. Por isso, é necessário uma postura cristã que respeita o todo da revelação do evangelho: a amabilidade de Jesus e sua verdade.
Sobre a fórmula Gospel
Algo que quero deixar claro é que não repúdio o movimento Gospel como um todo. Existem canções belíssimas compostas nesse meio e irmãos muito queridos que estão fazendo um excelente trabalho.
Porém, fica claro que existe uma saturação da fórmula gospel, estamos repetindo os mesmos versos e as mesmas palavras a ponto de serem esvaziadas e virarem um jargão por elas mesmas. E isso não é um problema só do meio Gospel, mas do meio Evangélico como um todo. Se assemelhando ao que Francis Schaeffer chama de “misticismo semântico”.
Com isso, podemos dizer duas coisas:
Precisamos de uma curadoria de hinos congregacionais. Há grandes compositores cristãos brasileiros fora do mercado gospel que fazer canções excelentes há anos, como o Vencedores por Cristo, e diversos artistas que saíram ou tiveram influência direta do grupo, como João Alexandre, Jorge Camargo, Stênio Marcius, Carlinhos Veiga, Gladir Cabral, entre outros. As músicas apresentam uma poesia com apurada cosmovisão Cristã e fogem dos padrões gospel em letra e musicalidade, podendo ser introduzidas no culto ou no consumo pessoal. Além de grupos como o Projeto Sola, que faz um ótimo trabalho em trazer com uma roupagem contextualizada textos da bíblia e da tradição reformada.
Porém, nossas expectativas quanto a mudanças devem ser realistas. As igrejas reformadas parecem estar lidando bem com os hinos congregacionais, repensando a própria liturgia em si, mas existe toda uma realidade nas igrejas brasileiras que é muito mais difícil mudar, por conta da já familiaridade com a tal “fórmula gospel”. Sem contar que a tradicionalidade de algumas igrejas impediria que hinos muito diferentes desse formato ou estética sejam adicionadas aos cultos. Não deveríamos jogar fora toda a cultura gospel, devemos respeitar os irmão que não pretendem e não vão sair desse meio.
Então, ao invés de imaginar uma reestruturação dos cultos ou do consumo de música por parte dos cristãos de maneira irreal, devemos buscar em nossas congregações uma curadoria mais apurada dos hinos. Hinos que fujam dos jargões e glorifiquem a Deus, independente de serem do meio gospel, worship ou das novas (ou antigas) composições.
A questão não é o cancelamento do Gospel, mas o amadurecimento do cancionário cristão como um todo.
O que nos leva para outra questão:
Querendo ou não, a cultura Evangélica veio para ficar, e o mercado Gospel tem total correlação com isso. Em um país com origens Católicas e Afro, chegamos ao ponto que a cultura Evangélica virou um patrimônio nacional. Os jargões e estética, por bem ou por mal, são reconhecidos em todo o país.
É necessário pontuar que essa estática reconhecível é, em sua maioria, do meio pentecostal e neopentecostal. Pois, apesar das igrejas reformadas terem chegado primeiro no Brasil e terem dado um grande embasamento teórico e literário para o país, foi a igreja Evangélica pentecostal que atingiu a cultura popular brasileira, e a igreja Neopentecostal que alastrou e pavimentou de vez esse caminho, com um amplo alcance da mídia. Apesar do Pabllo Vittar ter frequentado uma igreja presbiteriana, nesta canção ele repruduz influências claramente pentecostais.
Diante disso, é seguro dizer que a tão buscada Influência na Cultura Evangélica pregada por muitas igrejas, já existe. Tanto politicamente quanto culturalmente. Devemos reconhecer que o Brasil está prestes a alcançar um status de Pós Evangélica, onde a cultura assimila estética, princípios fragmentados e jargões da religião, sem abraçá-la por completo.
Como, então, responder o caso da canção Rajadão?
Depois de toda essa explanação, não é difícil constatar que a questão é mais complexa do que parece. Por isso, na hora de interagir com produtos culturais como Rajadão, devemos ter as seguintes posições:
1 — Ouvir
O que essa obra está querendo nos dizer? O que ela quer passar? Somos muito rápidos em querer entender as visões do artista em uma obra, mas isso exige muito trabalho técnico e teórico para fazermos uma exegese cultural. Portanto, nossa prática deve ser constante, estamos ouvindo as vozes da nossa geração?
Essa canção é um hino de guerra. Ela nos revela que o principal desejo de muitos gays é a vitória contra toda e qualquer obstrução do sonho de revolução afetiva. Apesar da canção ter um clima festivo, em certo sentido, ele não deixa de ter uma carga política muito forte. A mensagem é clara: a causa LGBTQI+ é uma questão de vida ou morte, é uma causa que Pablo e seu público leva com muita seriedade.
2 — Considerar as Qualidades
Você pode discordar, pode não gostar, mas achar qualidades artísticas em obras que não apoiam a fé cristã é um ótimo exercício. Isso nos ajuda a enxergar na criação a Graça Comum de Deus. Para remidos e não remidos, Deus dá qualidades e atributos, e isso independe de nós.
Por mais que não acredite na visão de mundo de Pabllo Vittar, me impressiona a precisão artística dele de sintetizar duas culturas emergentes no Brasil em uma única canção. Além da qualidade musical que emula e representa com assertividade esses dois mundos. Para se fazer isso é necessário ser um artista de mão cheia, e isso só pode ser uma dádiva de Deus.
3 — Considerar os Problemas
Quais são os problemas que a obra levanta? Essa leitura exige pelo menos duas camadas: primeiro abordar os problemas que a obra levanta, o que esbarra com o primeiro passo mas que está além da intenção do autor, e os problemas que a obra tem com a fé cristã, até onde o discurso e a forma da obra ecoa com nossa fé e visão de mundo?
Neste caso, os problemas levantados são diversos (por isso a extensão do texto). Mas alguns dos principais pontos, já levantados nos dois textos sobre o tema, é a questão da luta política da comunidade Gay enfrentada socialmente, por isso a necessidade de um “hino”, e a apropriação da fórmula gospel que revelou a confusão e falta de discernimento em uma significativa parcela do grupo cristão.
4 — Considerar Soluções
Por fim, nenhum desses pontos gerará frutos reais se não fizermos a pergunta: o que podemos fazer em relação a esses problemas?
Aqui, a resposta pode ser uma aplicação simples, como ouvir mais as pessoas do meio LGBTQI+, fazer uma curadoria de hinos que desafiam o vocabulário gospel, incluir estudos de canções como essas em estudos bíblicos e outras coisas práticas que estão em nosso alcance. Mas, em última análise, só haverá algum tipo de mudança, mesmo que singela, se nos dispusermos a fazer essa pergunta, nem que a resposta seja começar a mudança em nós mesmos.
Conclusão: A resposta está em ser como Jesus
Devemos ouvir Rajadão sabendo que ela retrata uma realidade que nos interessa. Não é só sobre a apropriação secular da fórmula Gospel. É sobre o alcance que a cultura Evangélica alcançou nacionalmente e sobre os principais medos da cultura LGBTQI+.
A canção nos mostra que a fórmula gospel apresenta problemas sim, mas nem por isso devemos negar nossos irmãos que estão dentro desse meio, ou que não deixarão de consumir esse tipo de música, seja em casa ou nos cultos. Isso nos mostra que há a necessidade de amadurecimento nas nossas canções congregacionais, para desafiar o esvaziamento das palavras que acabou acontecendo ao longo dos anos.
Há várias outras questões que poderíamos considerar em relação a essa canção, como a cultura trans, a secularização moderna e tantas outras. Mas essa interação, com a música e tantos outros meios, só será possível se formos aptos a ouvir as questões dos nossos tempos.
Como imitadores de Cristo, devemos ter uma ortodoxia nas relações, “prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar-se” (Tiago 1:19). Sem cair na tentação de abraçarmos visões não cristãs nem de fechar os olhos para a necessidades do mundo ao nosso redor.
Hudson Araujo é redator, revisor e um estudante de letras apaixonado pela teologia e igreja local. Nasceu em Jundiaí, interior de São Paulo, no dia 28 de dezembro de 1995, exatos 100 anos depois da primeira exibição pública do cinema. Coincidência ou não, é fissurado por histórias, estórias e toda forma de arte. Textos, artigos e mais aqui
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