Por Lucas Gonçalves
Existem alguns livros que nos afetam de forma especial. Para mim, O Oceano no Fim do Caminho, escrito por Neil Gaiman em 2013, com certeza é um desses livros. Além de ser muito bem escrito, ele possui uma narrativa muito envolvente e é um ótimo representante dos efeitos da Graça Comum[1], nos conduzindo a importantes reflexões filosóficas e teológicas.
Por isso, em minha primeira Curadoria Tangente, sugeri a leitura do Oceano. Agora, em minha primeira Exegese Cultural, quero compartilhar alguns insights que principalmente me interessam neste livro. Pretendo, neste texto, apresentar algumas curiosidades sobre o autor e o livro, depois oferecer um panorama da narrativa em si e, por fim, refletir sobre o evangelho manifesto nesta história — haveriam muitas outras possíveis reflexões teológicas a partir do Oceano, porém, neste texto, me proponho focalizar no Evangelho.
Neil Gaiman, nasceu em 1960 em Hampshire, Inglaterra, em uma família de judeus; porém, o autor publicamente já se declarou agnóstico. Desde muito novo, sua inclinação artística pulsou com força em seus desenhos, em sua banda punk e em suas histórias — estas influenciadas principalmente por C.S. Lewis, J.R.R. Tolkien e Edgar Allan Poe.
Originalmente, Gaiman tentou carreira no jornalismo, mas logo migrou para o universo das histórias fictícias, o que lhe rendeu inúmeros prêmios. Em seu extenso currículo aparecem narrativas em diversas mídias. Ele foi, por exemplo, responsável pelo roteiro dos quadrinhos Marvel 1602 e Eternos, pela Marvel, e de Sandman e Batman: O Que Aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?, pela DC Comics. Gaiman também é especialmente conhecido pelo livro Deuses Americanos, que ganhou uma adaptação na Amazon Prime Video, e por diversas releituras de histórias clássicas, como a Mitologia Nórdica e João & Maria.
O Oceano no Fim do Caminho foi inicialmente encomendado por Jonathan Strahan como um conto[2]; porém, acabou crescendo mais que o esperado até que se tornou um romance[3] completo. Outras duas questões interessantes relativas ao livro têm a ver com o teor infantil da narrativa: em primeiro lugar, Gaiman admite que muito de suas mais antigas lembranças compuseram a atmosfera do livro; em segundo lugar, seus três filhos pequenos foram seus principais críticos e o auxiliaram bastante no processo criativo.
O livro se trata de uma ficção de baixa fantasia[4]. Isto quer dizer que a história se passa em um ambiente real, no mesmo mundo em que vivemos, mas possui intervenções mágicas inesperadas e provocativas. Algumas pessoas defendem que o núcleo central da história seja a transição entre a infância e a vida adulta. Nós, porém, defenderemos que, ainda que este tema esteja presente, o real centro gravitacional da história tem a ver com a redenção.
O Oceano é uma história extremamente fluída, já que é contada segundo os dinamismos dos pensamentos de uma criança. Esta técnica narrativa nos conduz à curiosidade e à empatia, além de nos fornecer vigas de apoio, que nos ajudam na interpretação da história. Outra contribuição desse dinamismo infantil presente na história é o alívio cômico em momentos realmente tensos. Bem, introduções e comentários feitos, passemos agora para a história em si.
A narrativa conta com um prólogo (uma abertura), quinze capítulos e um epílogo (seu fechamento). Tanto o prólogo quanto o epílogo se tratam do contexto “atual” do protagonista, cujo nome não nos é apresentado, enquanto os quinze capítulos se dedicam à lembrança de um evento importante da infância do personagem principal.
Quando criança, o garotinho era bastante introspectivo e pouco sociável. Em determinado momento, sua família experimenta dificuldades financeiras e decide sublocar um dos quartos da casa, a fim de complementarem a renda mensal. Uma das pessoas que passa um tempo com eles é um minerador de opala, que pouco adiante se mata no carro da família do garotinho por conta de uma dívida financeira muito alta.
O minerador e o carro da família são encontrados na frente da fazenda das Hempstock, uma família bastante peculiar e com uma atmosfera mágica latente, composta por uma avó, uma mãe e uma filha, a Lettie Hempstock. Lettie e o garotinho tornam-se amigos e começam a investigar alguns acontecimentos intrigantes na vizinhança (pessoas começam a sonhar com dinheiro e, quando acordam, encontram este dinheiro presente sem, contudo, saber explicar de onde ele surgiu), que imaginam estar conectados ao suicídio do minerador de opala.
Este é um momento crucial para a história. Lettie e o garotinho entram na mata e acabam chegando em um lugar mágico. Ela diz ao protagonista para não soltar sua mão, pois o contexto era perigoso e ela o protegeria. Todavia, em um ato reflexo de proteção, o garotinho acaba soltando a mão de Lettie e um verme entra em seu pé, sem ele perceber, sendo levado com o menininho para a sua casa.
Descobrimos que este “verme” é justamente o ser que conduziu o minerador ao suicídio e tem causado problemas, realizando indiscriminadamente desejos nas redondezas. Este monstro agora deseja aprisionar o garotinho, que passa a ser protegido pessoalmente pelas Hempstock, por ter preso em seu coração o túnel que pode levá-lo de volta ao seu mundo original em uma possível fuga.
Então, para salvarem o garoto, as Hempstock convocam alguns pássaros místicos que devorarão o “verme”. Os pássaros comem o monstro, mas também querem a parte do ser que está dentro do garotinho.
Após ser transportado em segurança até a fazenda das Hempstock, o garotinho se sente culpado, pois, em protesto, os pássaros começam a destruir todo o mundo. Em um lampejo de coragem insensata, o protagonista decide se sacrificar para salvar o mundo e se lança aos pássaros.
Lettie, que não permitiria a morte do garotinho, se joga sobre ele e recebe todos os ataques dos carniceiros, ficando em um estado próximo à morte. Seguindo esse incidente, os pássaros são afugentados pela velha senhora Hempstock e a história é finalizada com Lettie sendo levada ao seu oceano mágico e o garotinho à casa de seus pais.
Há incontáveis pontos de contato entre esta narrativa e a cosmovisão cristã, como o dualismo e a ideia de satisfação. Mas, conforme anteriormente dito, neste texto eu quero me deter ao núcleo duro das Boas Novas. Logo, a primeira ponte que construirei será entre a Queda do protagonista e a Queda da Humanidade; então, comentarei sobre a tentativa de salvação autônoma do garotinho em paralelo à nossa própria tentativa egoísta de redenção; em seguida, falarei sobre o sacrifício amoroso e voluntário de Lettie em comparação ao de Cristo e, por fim, comentarei sobre o novo propósito que essas novas vidas adquirem.
Quando o garotinho sai em caminhada com a Lettie, ele já se sente especialmente acolhido pelas Hempstock. Não apenas isso, mas ele também já tem relances dos poderes delas — ele as viu adivinhar pensamentos e outras coisas igualmente incomuns. Ele poderia até não conhecer detalhes sobre elas, mas já conhecia o mínimo necessário para confiar em Lettie.
Paralelamente, a ordem recebida era simples: “não solte a minha mão”. Talvez você advogue a favor do menino e me lembre que ele não soltou a mão em aberta rebeldia, mas, sim, em um ato reflexo, impensado, desejando se proteger. Pois bem: este é o principal ponto contra o garoto, a sua inaptidão.
Esta é a mesma realidade experimentada por nós. Romanos 1 nos ensina que Deus se revela à humanidade através de sua criação. Ainda que essa revelação não seja plena ou especial, Paulo a considera minimamente suficiente para uma obediência voluntária ao Criador. O problema é que somos naturalmente egoístas, incapazes de amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Não desejamos ser orgulhosos, apenas somos. O mesmo Paulo confirmará isso em Romanos 8.5–7 e em Efésios 2.1–3.
Nesta segunda passagem bíblica, inclusive, é especial notarmos um dos atributos que o apóstolo confere à humanidade carnal: filhos da desobediência. O termo que traduzimos por “filhos”, ao pé da letra, indica uma natureza comum entre pais e filhos. Portanto, Paulo insiste que a natureza do ser humano carnal é a mesma de sua mãe, a desobediência. Em outras palavras, o apóstolo diz que a nossa oposição à boa Lei de Deus não é opcional, mas natural. Assim como o garotinho da história desobedeceu à Lettie por um ato reflexo, nós naturalmente desobedecemos às boas instruções de Deus.
Também é rico considerarmos que o verme veio ao mundo do garotinho dentro do próprio garotinho, de modo que o protagonista se tornou a porta de entrada para um mal especial, que afetaria todo o mundo. Não é diferente em nosso caso, onde os efeitos do nosso pecado chegam ao mundo através de nós e respingam em todas as relações sociais e culturais, afetando negativamente toda a realidade.
De certa forma, creio ser correto o pensamento do monstro quando ele diz que o garotinho lhe pertencia, já que parte do próprio verme se encontrava dentro do coração do protagonista. De fato, eles possuem uma peculiar conexão de pensamentos e sentimentos, e isto comprova a simbiose entre eles. Lendo isso, é quase impossível não pensarmos em nossa escravidão ao pecado, que faz parte de nossa natureza, guia os nossos pensamentos, sentimentos e vontades e nos afasta da vida plena (João 17.3), que Deus deseja nos dar generosamente.
Então, somos conduzidos para a iniciativa de Lettie em proteger e salvar o garoto. Por amor ao menino e ao mundo que as Hempstock cuidam, Lettie se propõe a se livrar do verme. Para isso, ela age justamente e chama os pássaros carniceiros. Igualmente, Deus, por amor a tudo o que há de bom — por amor a si próprio, a humanidade criada à sua imagem e semelhança e por amor a sua criação — se inclina a restaurar o mundo, removendo dele todo o pecado que ameaça a satisfação plena.
Porém, o problema se apresenta: parte do mal está dentro do garotinho, assim como parte do mal está dentro de nós, escravos do pecado. É justo que os pássaros comam, não apenas o verme, mas também o coração do garotinho, mesmo que isso custe a vida dele, da mesma forma que é justo sermos condenados por Deus, portadores e agentes do pecado.
Assim, por compaixão e misericórdia, Lettie se coloca entre o garotinho e os pássaros quando estes atacam o protagonista, recebendo nela seus ataques e preservando a vida do menininho. Semelhantemente, Jesus Cristo, sendo compassivo e misericordioso, como representante de uma nova humanidade se coloca entre o seu povo e a justiça de Deus, que removerá o pecado do mundo. Como Lettie, Jesus recebeu a punição que a humanidade pecadora deveria receber e preserva a vida dos seus.
Após a morte de Lettie, ela é levada ao seu oceano; Cristo ressurrecto é conduzido de volta ao Céu. Tanto o garotinho quanto nós temos agora a responsabilidade de viver uma vida que já não é mais nossa, mas, sim, daqueles que a cederam para nós. O valor da vida do menininho, assim como o valor das nossas vidas, não é mais fundamentado no próprio objeto, mas nos doadores dessas vidas.
Eu, sinceramente, gostaria de falar muito mais sobre o Oceano. Há matéria prima lá para refletirmos sobre muitas coisas interessantes, como a natureza do eu, as virtudes e os vícios de nossos desejos, os contrastes entre a infância e a vida adulta, além das cenas que abertamente exemplificam a fé segundo o conceito bíblico. Quem sabe um dia eu não coloque esta ideia em prática? Por enquanto, creio que podemos nos dar por satisfeitos.
Neste texto eu quis expor as pontes entre a mensagem de salvação do Evangelho e a redenção experimentada pelo protagonista do livro; creio que consegui fazer isso. Com este exercício, espero ter alcançado dois resultados:
Espero que tenham gostado deste texto, pois para mim foi muito bom escrevê-lo. Que Deus o use de alguma forma para abençoar a sua vida como Ele tem abençoado a minha. Obrigado pela companhia e até a próxima.
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Notas
[1] A Graça Comum é a doutrina bíblica que nos ensina que, apesar da queda da humanidade em pecado, Deus, além de refrear o mal, também promove o bem ao capacitar o ser humano a desenvolver suas sadias potências sociais e culturais.
[2] Um conto é uma narrativa curta, de poucas páginas. Em analogia às imagens, um conto seria como uma fotografia.
[3] Por outro lado, o romance é uma narrativa mais longa. Mantendo a analogia do exemplo anterior, o romance seria como um filme.
[4] Existem três distinções de fantasia. A baixa, que já explicamos no texto, a média e a alta. Um exemplo de média fantasia seria Game of Thrones, onde a magia se faz um pouco mais presente, porém as leis do mundo interno da narrativa são muito próximas à da nossa realidade. Por fim, um representante da alta fantasia poderia ser O Senhor dos Anéis, onde a magia se faz bastante presente e há lógicas internas especiais, diferentes das que experimentamos em nossa realidade.
Lucas Gonçalves é bacharel em Comunicação Social e estuda Teologia no Seminário Presbiteriano do Sul, além de ser pós-graduado em Plantação e Revitalização de Igrejas pela FATEV-CTPI. É seminarista na Igreja Presbiteriana de Paulínia e estuda a ética e a moral cristãs em C.S. Lewis e J.R.R. Tolkien.
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