por Arthur Martins
René Magritte foi um pintor belga surrealista cuja arte ecoa até hoje. Pensemos nele como um paradigma para a cultura e a tecnologia modernas, já que os Beatles e a Apple não só adotaram sua maçã, como disputaram judicialmente durante 20 anos pelo uso da imagem — em nossos dias, fazer uma imagem para si é o ideal utópico que quebra o segundo mandamento do decálogo sem medo. Aqui, a obsessão do homem com a criaturidade (maçã) como sendo divina, e a adoração do homem a criação (incluindo a si mesmo), é bem representada.
Magritte que me desculpe, eu amo muitas de suas obras. Mas esse quadro chamado “Filho do Homem”, assim como a grande maioria das obras de Magritte, não recebeu qualquer comentário explicativo por parte do pintor. Deixando, então, à nossa livre interpretação, passo a pensar sobre o ideal da filosofia moderna que criou raízes no século XX. Primeiramente, me lembro do prévio advento do Renascimento, onde o homem “renasce” sem Deus. Aqui, o imaginário do Filho do Homem renasce. O ideal de humanidade é muito bem representado no espírito do secularismo, quando aparece como alguém cuja visão da realidade é limitada pela criaturidade. Se já se falava de cosmovisão como óculos, essa maçã representa o óculos idólatra do homem moderno, que não consegue ver muito longe, a não ser pelas bordas do seu ídolo. Ele enxerga tudo através da imagem que adora.
Logo em seguida, pensamos sobre sua feição. Quem é essa pessoa? Magritte disse ser ele mesmo. Mas quem pode garantir? Se ele pretendeu que entendêssemos ser ele mesmo, pode estar mentindo. Não temos como saber. Parece ele, mas não temos como comprovar. Interessante é o fato de ele chamar seu auto-retrato de “Filho do Homem”. O “último homem” (fazendo uso do termo nietzschiano) é o super homem. “Super e divino é o próprio homem”, crê-se.
Como a face do homem está escondida, assim, também, se faz com a identidade do homem contemporâneo; se faz impossível de ser compreendida; ninguém lhe vê o rosto. “Everything we see hides another thing” disse Maggrite. Seguindo essa lógica, realmente, o hiperfoco humanista no “eu” esconde quem ele é de verdade.
Os habitantes da cidade-líquida trocam de ideologia a cada final de semana. Depois de anos de faculdade, tudo é desperdiçado em troca de alguma utopia sedutora que lhe cativou o desejo. Sem restrições morais, sem convicção de nada, o homem psicologizado segue aquilo que lhe provoca sensações, a cada dia sentado no banco de uma montanha russa, colecionando experiências pelas quais ele anseia se encontrar. Mas, como as emoções passam muito rápido, ele continua sem saber quem é, e sua identidade se mantém oculta. Suas sensações são como pseudo-revelações de seu ego, que como um reflexo no espelho, logo passam. Assim, o homem segue, obcecado com sua criaturidade e impossibilitado de ver-se como de fato é: significado de Outro; imagem quebrada do Deus Triúno, que precisa olhar pra cima e tirar os olhos do ídolo para encontrar o Caminho da vida.
A maçã e o Filho do Homem levam minha mente para a doutrina da recapitulação. Irineu de Lião (130–200) teve sua principal contribuição teológica à igreja quando afirmou que Cristo reuniu em si toda a humanidade e “reviveu” o acontecimento do Éden diante da tentação de “comer o fruto” e negar a cruz, mas não comeu. Eis aqui Magritte, (provavelmente) sem saber, fazendo-nos refletir sobre o verdadeiro Filho do Homem diante do fruto e da árvore/madeiro.
Retornando para a obsessão do homem contemporâneo por identidade, notamos nele a falta adoração Àquele que lhe concedeu imagem, ou seja, identidade. Enquanto o homem pós-moderno “descolado” (uso aqui essa palavra para me referir ao “cool” e ao desprendimento social em nome da busca utópica da autenticidade) continuar adorando a criatura, jamais vai encontrar sua identidade, e pior do que isso, jamais vai encontrar a identidade do Único Ser digno de adoração, vivendo eternamente preso em uma busca umbilical, obcecado por seu “eu” e sufocando-se em doenças psicológicas por tanto narcisismo.
O cotovelo esquerdo (direito nosso) do filho do homem, está invertido. Invertido ou quebrado, não sei. Mas ele remete à dor do desespero humano na areia movediça do espírito do seu tempo. Ele se contorce e se mutila em busca de pertencimento e saciedade. Ele deforma a si mesmo e se destrói se preciso, a fim de sentir-se à vontade consigo mesmo.
A saída desse labirinto terrível é nada mais que o reconhecimento que maçãs não voam, assim como ídolos não se sustentam. Talvez o que melhor possa representar uma verdadeira perspectiva acerca da realidade seja a pintura “Homem com Chapéu-Coco” (Magritte, 1964), onde uma pomba que de fato voa, está voando diante de seus olhos. Se pensarmos na pomba como uma imagem que faz menção do Espírito Santo, que, como Criador, é auto-existente, e sustentador da realidade, podemos fazer desta tela uma boa representação de uma visão de mundo determinada pela adoração do Espírito.
Arthur Martins é Pastor Plantador da República há 10 anos, uma Igreja Presbiteriana em Curitiba. Com Pós-Graduação em Espiritualidade pela FATEV e estudante do Invisible College. Casado com Maria Eugênia e possuidor da personalidade canina, Barnabé. Suas paixões são oração e música, além da incrível esposa.
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